Kurt

Trilha pútrida para ouvir: MTV Unplugged Nirvana. Em especial desatenção para com a faixa Where did you sleep last night.

Parte I

Eu sou tão feio, mas tudo bem, você também é
Quebramos nossos espelhos

- A manhã de Domingo é igual a todos os dias
- Ainda sou escravo e amante dessa heroína
- Mas isso não tem que acabar
- Amante, esposa que fere a carne
- Mesmo me matando
- Ainda ei de te amar

Tommy descera de seu apartamento mais uma vez. Ainda se preocupara imensamente com o fato de descer tão profundamente em seu próprio limbo, de tal forma que sempre sentia que o elevador o levava de certa forma para dentro de si mesmo, e entre um e outro ranger do cabo de aço que o sustentava, Tommy podera visualizava facilmente o ranger de dentes lhe impedindo sequer de pensar.

- Saia daqui, pobre viciado!
Não sou teu próprio Lúcifer
Para lher bancar de todo o pecado
Embora eu ainda tenha desse poder.

Tommy, que sempre tropeçava no mesmo meio fio em frente ao seu tranficante preferido, sempre sentira vontade de lhe arrancar as próprias orelhas ao ouvir o mesmo burburinho enquanto se levantava do chão com as suas pantufas velhas. Ainda que com sua alma dolorida (que Tommy já não soubera se a tinha vendido para o Diabo), sustentava em seus próprios ombros o gritar daquele traficante de merda e seu bafo de Marlboro velho. Seus olhos já não abraçavam a luz solar como antigamente, e Tommy já não desatara uma lágrima sequer de seu organismo tinha algum tempo.
O traficante, em meio essa situação, poderia ter sido classificado como um grande pensador contemporâneo, embora o mesmo não o soubesse o significado da mesma e só quisesse lhe poupar de problemas: uma overdose de um famoso em sua própria calçada era algo a ser notado.

- Eu preciso de outra dose
- Eu banco minha overdose
- Assim poderei morrer

Pegando um pedaço de papel, que tantas vezes lhe servira de arma de destruição niilista, no momento, não seria tão diferente.

- Me jogara em cima da bateria novamente
- Meu corpo todo dói
- Está subindo pra mente
- Essa dose, eu sei, não será suficiente

Tommy abrira os olhos. Seu paradeiro era desconhecido até para ele mesmo. Aquela massa tão volumosa de gente, pura gente, suada e bravejando com suas mãos no alto e suas camisetas folgadas.

"Eu não tenho sentido a excitação de ouvir, bem como criar música, junto com realmente escrito...por muitos anos agora"

Flashlight I

Antônio sempre esquecera de retirar o copo com café que sempre buscava refúgio perto do papel que sua caneta tocava. Antônio não tinha repúdio a computadores, muito pelo contrário, só pensava que o lápis e caneta eram instrumentos de suma perfeita, que canalizavam completo e diretamente a 'alma' do autor.
Ele se via trancafiado em sua kitnet no bairro de Santa Cecília em São Paulo, prédio esse, que sempre se fazia de presente com aquele forte odor de óleo de cozinha.

Seus pais nunca souberam ao certo o que Antônio havia feito em sua carreira acadêmica, na verdade, evitavam qualquer afronta com Antônio desde a primeira ida ao dentista, com 11 anos. Antônio mordera e quase amputara o dedo da simpática dentista que lhe ofereceria "um pirulito se ficasse bonzinho". Antônio achava um absurdo comer aquela quantidade de açucar logo após uma consulta ao dentista, e influenciado por Tommy, mastigou o dedo da dentista que transformara sua luva tão alva, em praticamente uma peça de carne pendurada no açougue.

Antônio, apesar de sua personalidade difícil, achava seus pais verdadeiros covardes por nunca se intrometerem em sua vida desde cedo. Talvez fosse a inexperiência no assunto, já que ambos nunca tivem famílias bem estruturadas. Antônio nunca teve um avô que lhe dava dinheiro para sair com a namorada, por exemplo. Mas que diabos, que namorada?

Antônio passou sua adolescência sozinho. Seus cabelos ruivos jogados no meio do cara, seu tronco alto de jeito magricela nunca chamara a atenção das garotas, quase sempre Antônio se perguntando se tudo era culpa de Tommy e um de seu planos mirabolantes para atrair garotas, embora estivesse justamente fazendo o contrário. Antônio passava o intervalo da escola sozinho. Geralmente comia aquela comida velha servida pela escola, apenas para passar o tempo. Seu pacto com Tommy nunca tinha sido quebrado. Durante a quinta série do ensino fundamental, Antônio fez um pacto de sangue com Tommy: entre as clausulas, uma delas era de Tommy nunca descer ao intervalo junto com ele. Como se isso o favorecesse. Pfff.

Sua adolescência de merda e depressão, embora nunca admitindo isso, foi causado pela rejeição do sexo oposto; Antônio nunca em toda sua vida chamara a atenção de uma garota (pelo menos não de uma forma positiva).
Até que descobriu o prazer da escrita. O final de seu caderno era seu tesouro pessoal: Poemas e desenhos macabros, carregados de ofensa própria e social, era tudo que Antônio mais adorava. Tommy que era o único que havia permissão pra ler, apoiava-o sempre em suas escritas. Que forma melhor de expressa sua melancôlia do que transformando em literatura? Se houvesse outra forma, Antônio e Tommy desconheciam completamente.
Os LP's velhos de seu pai sempre estivera ali quando os dois desenhavam sua professora de português nua: Os dois gostavam de ser podres de pensamento, isso lhes confortava. Miranda era uma professora linda e de forte apelo religioso; do tipo que você ignora o sutiã tamanho 50 simplesmente por ver nenhuma maldade em seu olhos. Mas os dois ainda a desenhavam de quatro sendo sodomizada ou algo do tipo. Tinham certo receio de que alguém visse e alarmasse a professora, mas sempre se julgara muito insível pra ter atenção suficiente de alguém bisbilhotando o que eles faziam durante aulas e aulas com a cabeça abaixada.

Voltando aos seus escritos, Antônio, com sua cabeça raspada (tentando se desfazer dos cabelos ruivos que herdara da mãe), se olhava discretamente no reflexo do vidro da televisão que seus pais lhe deram quando saiu de casa. A crosta de poeira que se armazenava sobre, caia nas pilhas de livros e vinis antigos; Uma camada tão grossa que se perguntava quando a mesma criaria vida.
Tommy estava calado. Já tinha feito duas semanas desde que Tommy tivesse dito alguma coisa. Antônio lhe respeitava: sabia das crises de "ciúme" que Tommy tinha sobre ele, principalmente quando uma ideia lhe aflorava e arrepiava a nuca. Tommy parecia diferente aquela semana. Talvez tivesse feito a barba e aparado as pontas de seu longo cabelo loiro, deixando os um pouco acima dos ombros. Seus olhos azuis o esparavam para adentrar mais uma vez as escritas de Antônio, era como se a vida de Tommy estivesse diretamente conectada naquele papel e nada mais ao seu redor lhe fazia sentido.

Fim do Flashlight I

Tommy se via de frente aquele público massante de novo, e por ironia do destino, sentia aquele cheiro de desodorante que ele odiava, mas ainda assim o usava, como uma espécie de karma.

- Todos querem ouvir
- Todos querem sentir
- Meu niilismo está imperando
- Sinto que vou cair
- Mas isso está fora dos planos

Tommy, que via os números do elevador subindo em ordem crescente, se viu novamente sobre o muro da uma clínica de recuperação dias antes. A intervenção que fora feita por seus amigos havia sido mera perda de tempo em seu ver. Como se a recuperação da alma realmente existisse e como se o projeto de alma existisse. Era muito mais que químico, mas era só químico.
Tommy não sabia articular direito as palavras para com a comissária de bordo; Tinha pegado um avião de volta para a casa. Suas veias ainda estavam marcadas pelas seringas, que por sua vez, não tinham lhe fornecido a dose necessária pra voltar a realidade.

"Se o meu sorriso mostrasse fundo da minha alma, muitas pessoas ao me verem sorrir, chorariam comigo"

Tommy, em mais um flash, vira ele mesmo dois dias depois de ter embarcado naquele avião; vendo os números do elevador subindo em direção ao infinto, mas largando seu pensamento lírico, subindo apenas até seu apartamento com cheiro de mofo.

Tommy ainda tinha flashs de sua filha enrolada, procurando um abrigo em seus braços, como se os braços que a seguravam podessem exercer o mínimo de segurança. Sentia as delicadas mãos daquela linda garoto puxando a sua barba, que lhe fez pensar no porquê de trazer um ser de afeições tão angelicais a esse mundo de merda, mas ali, naquele momento, tudo valia a pena.

Seu violão soava mais uma vez em outro ambiente. Era tudo tão mórbido que a vida de Tommy sorria por dentro. Apesar de se sentir completamente apático a tudo; até as baquetas com ponta de madeira pareciam britadeiras mentais e o atrito era por demais penetrante naquele ambiente onde Tommy estava. Era um impecilho constante para ele se tornar quem ele queria ser. Mas que diabos, quem Tommy queria ser?

Seu elevador claustrofóbico finalmente chegara em seu destino. Parecia uma eternidade, a eternidade na qual Tommy estava querendo alcançar. A mão na maçaneta da porta lhe parecia mais fria do que nunca. O revolvér que segurava, uma pedra de gelo e o ar, cada vez mais espesso.

Sua arma colocada sobre a sua cara, Tommy sabia que seria rápido e uma eternidade, sabia. Ele sabia. Sempre soube. Tommy. Tommy. Sua vida foi tão genial; Teu bêbe atrás da nota de dolár se afogará, finalmente. Tommy sempre soube. Talvez ele era sua própria heroína, sua própria droga. Que overdose de si mesmo, que pena de si mesmo, que sorriso tão fétido e falso. Tommy. Tommy não tremia ao segurar a arma, sabia que aquele era o fim.

Flashlight II

Antônio já houvera escrito sobre suicidadas antes. Aquela sua camiseta velha e desbotada do Unknow Pleasures que usava era rastro disso.
Adorava documentários sobre suicídas. Principalmente os que se jogavam da ponte Golden State, mergulhando naquela água maciça e gélida, alguns para até mesmo nunca serem encontrados.
Os motivos? Adversos, mas de fácil conotação comum; A perca do sentido da vida mediante a desilusões amorosas, frustrações profissinais e etc. Embora o niilismo de Antônio não permitisse (pelo menos até o momento) a compreensão de "perca de sentindo", lá no fundo do seu subconsciente, Antônio os admirava e os repudiava devido a tana covardia.
De forma filosófica, o suicído era a forma mais linda que Antônio já vira em sua vida: renegar o que lhe foi dado naturalmente era o sinal mais lindo de rebeldia. Mesmo após sua depressão aos 14 anos de idade, Antônio nunca mais pensara em suicídio. Lhe parecia uma ideia boba, de não aceitação dos fatos e sabia que aquilo era mera puberdade (embora Antônio ainda acordasse suado vendo Tommy se jogar do alto de uma ponte pelo menos duas vezes por semana).

Fim do Flashlight II

Tommy segurava aquela arma tão reluzente e puxara o gatilho. Foi tão rápido que a escuridão lhe abraçou sem sentir dor. O gosto de pólvora, o gosto da morte, era até doce ao paladar de Tommy. A Morte. Materializou-se naquele revólver. E era doce.

Notas de rodapé de Antônio Candido

- Descartar a última parte? A morte dele talvez não tenha sido tão sucinta.
- Preciso parar de me aprofundar em mim mesmo para escrever.
- Tommy, cada vez eu te odeio e te amo mais.
- Que se foda tudo, vou tomar outro café e acender outro cigarro.
- Descartar capítulo e começar outro?
- Sim ou sim?

Sobre Tommy

"Tommy" é uma narrativa poética, em formato de crônica ou coisa parecida que eu realmente não sei como classificar.
Baseada pura e unicamente na história e jornada do rock n' roll e por quem o fez. A começar, o nome "Tommy" oriundo do quarto álbum da banda The Who.

De caráter completamente reproduzível, o personagem Tommy, que é passado e renascido em diferentes épocas, não vem de Antony ou Tom, mas Tommy. Com cenários divergentes e personalidade mutável, Tommy, fisicamente e psicologicamente falando, pode se formar da forma que você bem o entender, de que lhe for conveniente ou de como você queria o ser.

Tommy, ou "Os contos de Tommy", é uma história em 10 partes, então, prepare seu conhecimento musical pra se encontrar com cada uma delas e vamo nessa.

Marcos Candido, o autor.